O professor Eswar S. Prasad, da Cornell University, acaba de lançar “The Doom Loop: Why the World Economic Order Is Spiraling into Disorder”, um livro que busca explicar por que a instabilidade tende a se tornar o padrão da economia e da geopolítica no século XXI. A tese central é provocadora: as mesmas forças do pós-guerra — regras compartilhadas, mercados abertos e cooperação internacional — que elevaram prosperidade e reduziram conflitos, hoje também contribuem para um ambiente global mais volátil e difícil de governar.

No coração do argumento está um paradoxo da globalização. Segundo Prasad, a integração econômica ajudou a retirar milhões de pessoas da pobreza, mas distribuiu ganhos de forma desigual e administrou mal os riscos estruturais. Em mercados emergentes, entradas e saídas rápidas de capital amplificaram vulnerabilidades e crises; em economias avançadas, o esvaziamento de setores industriais alimentou ressentimentos que se expressaram em política populista e desconfiança institucional.

O “doom loop” descrito por Prasad é um ciclo de feedback negativo: volatilidade econômica gera reação política; a reação política corrói regras e instituições internacionais; e a fragilização dessas regras intensifica a própria volatilidade. Na prática, organizações como FMI e OMC lutam para se adaptar a uma distribuição de poder mais dispersa, enquanto o surgimento de novas instituições não necessariamente recompõe a coordenação — podendo, ao contrário, acelerar a fragmentação.

O livro dedica atenção especial às “potências médias” — como Brasil, Índia e Indonésia — que não são mais economias pobres, mas também não dominam a agenda global. Para Prasad, elas ficam comprimidas pela rivalidade crescente entre Estados Unidos e China, pressionadas a tomar posição em disputas de comércio, tecnologia e segurança. Ao mesmo tempo, tecnologias como IA e finanças digitais prometem produtividade, mas podem ampliar desigualdades e complicar a governança, reforçando tensões sociais e geopolíticas.

A mensagem, porém, não é fatalista: Prasad afirma que a espiral não é inevitável e defende reformas pragmáticas, como atualizar a governança internacional, construir amortecedores contra choques e criar regras para tecnologias emergentes antes que crises as imponham. Para líderes empresariais e formuladores de políticas, a leitura é direta: resiliência hoje exige vigilância sistêmica, gestão de riscos interdependentes e capacidade institucional de agir de forma preventiva. Deixa claro que, no mundo real, economia e segurança (inclusive digital) já se reforçam mutuamente.

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