André Ramos
André Ramos

A máxima de que a diferença entre remédio e veneno é a dose também vale para o uso de tecnologias da Saúde. Seus efeitos adversos diretos para o paciente ou indiretos pela inanição financeira do sistema de Saúde em decorrência de seu uso indiscriminado tem causado grandes prejuízos socioeconômicos. Neste contexto se inclui tecnologias de diagnóstico, cirúrgicas, de tratamento, de reabilitação e de informação.

O problema fica evidente quando o Dr. Claudio Lottenberg cita que nos EUA o abuso da tecnologia já é a terceira maior causa de mortes e é responsável por 30% dos custos da Saúde [1]. Fácil supor que os números do Brasil não sejam melhores, logo boas práticas que minimizem essa problemática, tal como a integração dos agentes de Saúde, deve ser objeto de atenção e de ação imediata para o necessário combate à inflação médica.

Mas como mitigar o abuso de tecnologias na Saúde? Embora NÃO exista “bala de prata” a melhor resposta é usando a própria tecnologia! Sim, se deve utilizar tecnologia, especificamente software, para disseminar e gerir a adoção das boas práticas que remetam ao uso racional das tecnologias ao mesmo tempo em que promovam diagnósticos precoces. Para isso existem softwares para educação médica continuada em larga escala, para levantamento de suspeitas diagnósticas, para discussão de casos, para apoio cirúrgico e tratamento, assim como para a gestão técnica de equipes médicas.

A mudança em favor da racionalidade do uso de tecnologias passa obrigatoriamente pelo Governo e pelas Operadoras de Saúde, afinal compete a estes agentes a proposição e a sustentação de modelos de atenção economicamente viáveis e eles não estão parados. Já temos vários casos de sucesso, o que falta é que a Saúde como um todo se inspire nestes casos pontuais para escalarem seus modelos para as demais especialidades. A título de exemplo temos o sucesso do programa de incentivo ao parto normal em detrimento do parto cesariano do Ministério da Saúde e na iniciativa privada a Bradesco Saúde já começa a colher bons resultados econômicos com a atenção básica.

Em plena noite de natal, o que reforça a importância social do tema, o noticiário demonstrou que as operadoras estão investindo em Atenção Básica de Saúde como forma de evitar internações e consequentemente evitar possíveis abusos de tecnologias e seus custos inerentes. A matéria cita especificamente a Bradesco Saúde que está investindo na criação clínicas de atenção básica em todo o Brasil. Também foi citado o caso de Florianópolis que tem 75% do seu corpo clínico especializado em Saúde da Família que por sua vez pratica a atenção básica diretamente na residência dos pacientes. Independente da abordagem, fica claro que há resultados positivos na medida em que há a redução de custos em relação ao modelo prevalente pautado em consultas com vários especialistas intercaladas a visitas aos prontos-socorros. [2]

Interessante destacar que é ínfimo o número de médicos especializados em Saúde da Família no Brasil, pouco mais de 5 mil, e estimular clínicas, hospitais e as próprias operadoras a também adotarem as boas práticas da Saúde da Família é um desafio técnico e especialmente econômico. De todo há soluções que passam, por exemplo, pela remuneração baseada em resolutividade (Medicina Baseada em Valor) e pela adoção de protocolos da Medicina Baseada em Evidências padronizados e devidamente gerenciados.

Para a padronização das melhores práticas por uma operadora ou Governo seria preciso que eles definissem um bom acervo de protocolos, treinassem os médicos e gerissem o uso dos protocolos. Outro desafio seria sensibilizar, primeiro, os médicos e, depois, os hospitais e clínicas credenciados a adotarem os protocolos e neste ponto a remuneração baseada em sucesso é uma opção. Não é uma tarefa fácil, mas é possível. Há casos de sucesso tanto nos EUA, quanto o Brasil.

O Johns Hopkins Hospital corrobora a problemática dos crescentes custos da Saúde mundial em uma infinidade de artigos, assim como atribui grande parte desses custos ao burnout da equipe médica que hoje chega a perder 70% do seu tempo com burocracia [3]. Com diagnóstico claro, o Johns Hopkins Hospital partiu para a ação e adotou um software da empresa Nuance. Segundo portal Healthcare IT News, os resultados foram extraordinários ao ponto de muitos médicos relatarem terem redescoberto seu amor pela medicina, amor que inclui dar a devida atenção ao paciente em detrimento da burocracia. Equipes motivadas também motivaram pacientes e promoveram a redução de custos da operação. O software que eles utilizaram foi uma espécie de chatbot com reconhecimento de voz no qual os médicos ditam o atendimento. [4]

“A carga da documentação é um dos principais contribuintes para o esgotamento do médico, uma vez que os profissionais se sentem sobrecarregados com a quantidade de informação que precisam para digitar nos Prontuários Eletrônicos” (Healthcare IT News, 2018)

No Brasil, assim como nos EUA, os prontuários não reduzem a burocracia [3], mas existem alternativas. A título de referência cito o caso de sucesso de dois hospitais especializados em oftalmologia, o CBCO de Goiânia e o CBV de Brasília, que investiram na Mindify, um software para automação de protocolos com objetivo de padronizar e otimizar seus protocolos de atendimento. Segundo relato do patrocinador do projeto o Dr. Marcos Ávila durante o Research Day da Universidade Federal de Goiás (UFG) a Mindify reduz significativamente a burocracia clínica na medida em que usa IA para otimizar a interação dos médicos com o software, inclusive alguns dos médicos relataram que a interface baseada em cliques da Mindify é mais simples do ditar (verbalizar) o atendimento. Na Mindify os protocolos são parametrizados segundo os interesses do contratante e neste contexto o CBV elegeu o Dr. Mauro Nishi como responsável técnico pela definição dos protocolos. Segundo Nishi os protocolos são capazes de padronizar os atendimentos na medida em que capacitam as equipes médicas de forma automatizada e de baixo custo. Software simples de usar e que capacita a equipe médica promove a geração de dados clínicos do mundo real de alta qualidade que por sua vez são usados para gestão do uso os próprios protocolos.

Ainda na temática da redução da burocracia no Brasil há caso de sucesso do Robô Laura, solução capaz de processar os dados dos monitores multiparamétricos disponíveis nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) para alertar proativamente a equipe médica em caso da eminência da ocorrência de sepse. Segundo o Instituto Latino Americano de Sepse, atualmente a sepse é a principal causa de morte nas UTIs e uma das principais causas de mortalidade hospitalar tardia, superando o infarto do miocárdio e o câncer. O Robô Laura reduz mortes por ser capaz de identificar minúsculas variações nos sinais vitais indicativas da eminente entrada do paciente em estado de sepse. Neste contexto, o software reduz as chances e óbito ao mesmo tempo em que reduz a burocracia ao processar automaticamente grandes quantidades de dados para evidenciar os casos que realmente precisam da atenção da equipe médica.

Já para integrar soluções, como a Mindify e o Robô Laura, aos processos hospitalares existem soluções de integração como a proposta pela Sollis Inovação, que permite a troca bidirecional de informações de saúde entre médicos, pacientes, farmácias, laboratórios, hospitais e clínicas. A Sollis seria um hub de integração de informações entre as inovações capazes de mitigar a problemática da Saúde aos tradicionais prontuários eletrônicos do mercado. Ou seja, operadoras de saúde, hospitais, clínicas e até o SUS podem sim se beneficiar das inovações técnicas para a equipe médica sem impactar suas rotinas administrativas e contábeis.

“Dados de boa qualidade centrados no paciente são essenciais para a integralidade do atendimento que leva a diagnósticos precoces e a redução dos custos da Saúde” (Carlos Eli Ribeiro, especialista em Saúde Pública, CEO da Sollis).

Sim, a integração da Saúde é a solução e, sim, existem inúmeras tecnologias já disponíveis para esse propósito que vão além da simples integração de dados, passando pela definição de processos e até pela educação médica continuada. Cabe agora às operadoras e aos hospitais e clínicas de referência localizarem ou simplesmente darem abertura às empresas que produzem essas soluções. Naturalmente existem riscos, afinal eles são inerentes a qualquer inovação relevante, mas os riscos podem ser mitigados com projetos pilotos e por contratos muito bem estruturados.

O ano de 2019 promete, por que não ser a sua a empresa a protagonizar o combate ao burnout médico ao mesmo tempo em que promove o uso racional da tecnologia médica?

Referências

[1] LINKEDIN PULSE, CLÁUDIO LOTTENBERG. Integração na Saúde. Disponível em: <https://www.linkedin.com/pulse/integra%C3%A7%C3%A3o-na-sa%C3%BAde-claudio-lottenberg>

[2] JORNAL NACIONAL. Planos de saúde começam a investir em medicina de família. Disponível em: <https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2018/12/25/planos-de-saude-comecam-a-investir-em-medicina-de-familia.ghtml>

[3] LINKEDIN PULSE, ANDRÉ RAMOS. Uma [segunda] receita para o prontuário eletrônico. Disponível em: <https://www.linkedin.com/pulse/uma-segunda-receita-para-o-prontu%C3%A1rio-eletr%C3%B4nico-andr%C3%A9-ramos>

[4] HEALTHCARE IT NEWS. AI assisted conversational technology from Nuance reduces the documentation burden on clinicians, allowing them to rediscover the joys of practicing medicine. Disponível em: <https://www.healthcareitnews.com/news/johns-hopkins-taps-nuance-tech-help-fix-physician-burnout>

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