E se fossemos todos neutros quanto ao gênero, à classe social, à etnia? Seriam nossas ações e reações perante terceiros diferentes das que tomamos hoje? Seria esse um planeta melhor? Estaríamos construindo uma sociedade melhor para todos?

Nem “Abracadabra”, nem “Sinsalabin”

Ficções como as histórias de Harry Potter e seus colegas de Hogwarts oferecem momentos de fértil imaginação, pendulando entre o bem e o mal, ou o desespero e a alegria, culminando com situações fantasiosas de plenitude para as personagens. Porém, findo o episódio, retornamos a realidades que nos impõem desafios concretos, que frequentemente nos levam a questionar se há caminhos para um mundo melhor.

Pois com apenas 3 letras, os Finlandeses oferecem ao mundo uma possível palavra-chave que abriria novas possibilidades para a sociedade humana. Conheça “HÄN”!

Hän é o pronome inclusivo que representa equidade de oportunidades. É a terceira pessoa do singular que, apesar de existir a muito mais tempo no idioma finlandês, foi formalizada no ano 1543 no primeiro livro publicado naquela língua e não especifica gênero. Substitui tanto o “Ele” quanto o “Ela”. E, a cada dia mais, simboliza um mundo melhor, onde as pessoas não são definidas por sua aparência, sexo ou genealogia.

Pode parecer utópico, porém, o atento estudo de caso Nórdico, região que abarca várias das nações de referência nos quesitos de qualidade de vida e felicidade, pode servir de comprovação da oportunidade que o conceito “Hän” nos traz.

Veja aqui um vídeo produzido pelo Governo Finlandês para semear o conceito mundo afora:

Portanto, eu sou hän. Você é hän. Todos somos hän!

E, na Finlândia, todos tem direito de tratamento igualitário, habilitando-os a pertencer, participar e alcançar seu pleno potencial. Podemos entender com aquela nação como o respeito mútuo e a solidariedade, aliados a oportunidades iguais e padrão de vida decente para todos, levam às uma sociedade inclusiva, produtiva e, principalmente, feliz.

Para eles, “Hän” é, sim, uma palavra mágica!

Segregação: Sociedade Retalhada

Ao passo em que o avanço tecnológico nos oferece a todos uma condição até então impossível de se interagir com pessoas de todo o planeta em tempo real, a composição de grupos plurais impulsiona a condição de aproveitamento de experiências, capacidades e talentos mais diversos, facilitando a construção de soluções mais maduras e viáveis para os vários desafios que se impõem sobre o planeta a cada momento.

Porém, limitações ignorantes se impõem em diferentes arenas do convívio humano. A segregação social em suas diversas formas, como o racismo, a xenofobia, a discriminação e a preterição, são instrumentos de destruição de entusiasmos individuais e de respeito humano, promovendo o desalento, o egoísmo, a depressão, e corroendo o tecido social essencial para a construção de riquezas na era do conhecimento. Não raro, levam à crescente polarização, ou até mesmo ao conflito e a situações de violência.

Vejamos, a seguir, alguns problemas diagnosticados.

Superpoderosas! Será?

O preconceito de gênero contra mulheres atinge cerca de 90% da população mundial, afirma o estudo “Tackling Social Norms – A game changer for gender inequalities” do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) divulgado nesta quinta-feira (05/03).

O relatório, que consultou 75 países e territórios, mostra que o preconceito contra as mulheres persiste em todo o mundo, tanto entre os homens como entre as mulheres. Entre os consultados, mais de 90% dos homens e 86% das mulheres demostraram ter ao menos um preconceito claro na questão da igualdade de gênero em áreas como política, economia, educação, violência doméstica e direitos reprodutivos das mulheres.

Ainda, segundo a análise, praticamente a metade da população considera que os homens são melhores líderes políticos do que as mulheres, e mais de 40% acham que os homens são melhores diretores de empresas. Impressionantemente, 28% do total considera justificado que um homem bata na sua esposa, o que demonstra o desafio que ainda encaramos mundialmente na dimensão de direitos humanos e igualdade de gênero.

Que comam Brioches…

Survival of the Fattest (de Hans Christian Andersen)

Há dúvidas se a frase acima foi pronunciada pela iletrada princesa Maria Antonieta, que vivia na Áustria no momento acalorado da Revolução Francesa, ou se teria autoria de Maria Tereza, esposa de Luís XIV da Espanha. Alguns, ainda, afirmam que a frase teve origem em uma ficção escrita pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau, trazendo pitadas agudas aos seus relatos da revolução. Independente de sua origem, a frase “Se não têm pão, que comam brioches” se tornou símbolo global da desconexão entre classes sociais.

Ficcional ou não, a frase contém significativa carga discriminatória, representando não somente o desinteresse das classes mais ricas em relação à dinâmica de vida dos menos privilegiados, mas também a busca por soluções imediatistas, inconsequentes e inconsistentes quando da ocorrência de levantes populares.

Estudo do Fórum Econômico Mundial realizado pela primeira vez em 2020 trouxe luz e estrutura para a análise sistematizada deste problema. E seus resultados nesta edição revelam que, em média, a maioria dos países estão ainda distantes de oferecer condições justas e adequadas para que seus cidadãos possam florescer economicamente. As chances de um indivíduo na vida ainda são, infelizmente, desproporcionalmente influenciadas pelo seu ponto de início — seu status sócio-econômico ao nascer — gerando sociedades que sistematicamente reproduzem as desigualdades, ao invés de reduzi-las a cada geração. E o Brasil, bem como a grande maioria dos países da América Latina, é um triste exemplo disso, tendo um dos piores índices de desigualdade do planeta.

E em um mundo de aceleradas mudanças, e onde há mais transparência que nunca sobre quem tem ou não oportunidades, cresce a esperança de que possamos estruturar novos caminhos para o crescimento individual, o empreendedorismo inovador e a prosperidade econômica e social dos cidadãos. Governos e sociedade precisam reunir competências para aprofundar a compreensão sobre as complexas dinâmicas do progresso, desenhar novos padrões, condutas e estruturas, e impulsionar ações colaborativas rumo a mudanças. A interconexão de 3 pilares-chave para o impacto social: crescimento e competitividade; educação, habilidades e trabalho; e equidade e inclusão. E isso precisa de boas doses de urgência e ambição, dada a demanda por mudanças que o contexto global nos impõe.

Delírios persistentes de Hitler

A tenebrosa experiência de extermínio humano protagonizada por Hitler durante a II Guerra Mundial ocorreu em nome de um conceito comprovadamente falso de “raça pura”. E, infelizmente, parece não ter sido suficiente para o planeta testemunhar tamanha atrocidade, além de tantas outras historicamente e cotidianamente reportadas, para banir definitivamente a discriminação racial de nosso convívio. Temos, portanto, um persistente exército “Hitleriano”, entorpecido por defasados conceitos e símbolos, a coabitar e perturbar nossa sociedade global.

Milhões de pessoas sofrem todos os anos com o Racismo, basicamente porque, para os delinquentes que o praticam, o ato de praticar ou afirmar algo opaco e doloso contra uma vítima é bem mais simples, ou instantaneamente proveitoso para si, que a busca de uma solução coerente, racional, transparente e educada. Com características, alvos e abordagens que podem variar nas diversas regiões, invariavelmente o Racista, por ignorância ou por egoísta conveniência, atua em menor patamar intelectual e social.

E o prejuízo sistêmico gerado por essa prática infame atinge a todos nós. Os casos individuais de depressão, ruptura produtiva e custosos tratamentos se agregam em enormes montantes. Vejamos alguns exemplos a seguir:

Prejuízos da Segregação para a Sociedade Global

Observemos aqui alguns resultados de estudos que analisam os impactos econômicos da segregação:

  • Relatório do Altarum Institute em parceria com a W.K. Kellogg Foundation (WKKF), intitulado “The Business Case for Racial Equity” quantificou o impacto econômico do racismo nos Estados Unidos, bem como os benefícios de se avançar com políticas de equidade social. O estudo aponta, por exemplo, que, caso toda a população americana tivesse acesso às mesmas condições de saúde e educação disponíveis aos brancos americanos, o PIB do país cresceria quase U$ 2 trilhões por ano, um aumento de quase 16% do total.
  • Estudo do PhD M. V. Lee Badgett e divulgado pelo Banco Mundial (The Economic Cost of Homophobia & the Exclusion of LGBT People) apontou que a discriminação a lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT) custaram cerca de 2% do PIB da Índia;
  • O artigo acadêmico “Aggregate Costs of Gender Gaps in the Labor Market: A Quantitative Estimate“produzido pela Universidade de Barcelona em parceria com a University of Sheffield apresentou que a desigualdade de gênero no mundo árabe gera uma perda de renda da ordem de 27% no Oriente Médio e Norte da África. Na Ásia Central o prejuízo é da ordem de 16%, e no Sul asiático chega à ordem de 19%.

Muitas são as consequências desastrosas para a sociedade. Quantificá-las agrega a perspectiva econômica na compreensão do problema. E, de forma construtiva, torna-se oportuna a convergência entre a perspectiva econômica e a social.

Finlândia: segura, alegre e livre

Vejamos, agora, alguns exemplos de resultados alcançados pela Finlândia, país referência em Inclusão e que nos ofereceu “Hän”:

  • 1º lugar no Ranking global da ONU World Happiness Report em 2018 e 2019, que demonstra o quão felizes as pessoas de cada país se percebem, bem como esperam avançar ainda mais em quesitos como: normas sociais, conflitos, políticas governamentais e tecnologias que impulsionam esse ambiente;
  • 3º lugar no Ranking global do Fórum Econômico Mundial Global Gender Gap Report em 2020, que avalia o grau de paridade nas oportunidades que cada país oferece a mulheres e homens;
  • 4º lugar no Ranking da União Europeia + OCDE de Justiça Social, que mede 6 dimensões-chave – prevenção da pobreza, educação equitativa, acesso ao mercado de trabalho, coesão social & não-discriminação, saúde, e justiça intergeracional;
  • 1º lugar no Ranking de 2018 do The Good Country Index, que avalia o engajamento de uma nação rumo à solução de problemas globais;
  • 1º lugar no Ranking global de Qualidade de Vida para Expatriados em 2019, na dimensão de Saúde e Bem-estar;
  • 5º lugar no Ranking do Banco Mundial The Human Capital Index em 2018 que mede o capital humano esperado aos 18 anos de idade para uma criança nascida hoje em cada país, considerando as condições de saúde e educação do seu país de nascimento;
  • 1º lugar como País Mais Estável do Mundo em 2019 segundo o ranking Fragile States Index, que avalia o grau de riscos e vulnerabilidades que cada um dos 178 países avaliados está submetido;
  • 3º lugar no Ranking global do Fórum Econômico Mundial Global Social Mobility Index em 2020, que avalia as condições oferecidas por cada país para que seus cidadãos mais pobres possam alcançar melhor patamar econômico;
  • Nota máxima (100 de 100) no Ranking global da Freedom House Freedom in the World em 2020, que mede a maturidade democrática e o grau de direitos políticos e liberdades civis a que estão submetidos os cidadãos de cada país;
  • 2º lugar no Ranking global da OECD + INFE International Survey of Adult Financial Literacy Competencies, que mede a alfabetização e a proficiência econômica da população adulta de cada país.

Estes e outros estudos e rankings globais nos apontam que, realmente, a convergência entre as agendas social e econômica não é apenas uma opção. É, sim, o caminho de sucesso.

Mesas amplas… ou Muros altos?

Gosto e aplico a seguinte definição: Economia é a forma como a Sociedade se organiza para produzir seu Bem-estar. Definição rica, densa e ampla. Presume ação conjunta, colaboração, zelo. Porém pressupõe esforço, dedicação.

Mas é essa definição que nos propicia uma linha consequente de raciocínio, a começar por algumas questões-chave: Por que fomentar a convergência e a sinergia? Por que desenvolvermos, desde nossa tenra infância, a relevância e a predisposição à empatia com o próximo? Por que precisamos de um novo olhar para a Equidade de Oportunidades?

Porque somos seres gregários. Não temos capacidades individuais destacáveis em meio à natureza. Não voamos sem equipamentos. Não mergulhamos por mais que algumas braçadas. Não temos as garras mais afiadas, ou os dentes mais agudos. Sozinhos somos frágeis!

Nosso próprio domínio do planeta, enquanto seres humanos, tem na coesão de esforços a sua principal razão de existir. E, mesmo em tempos novos, que nos reservam inéditos desafios para permanecermos habitando sustentavelmente a Terra, essa mesma coesão será o combustível a impulsionar saltos tecnológicos, avanços políticos e sociais. É esse o nosso caminho.

O contrário é perigoso. A fratura entre os indivíduos fatalmente resultará em problemas, violência. Individualmente, alguns tentarão pela trilha individual. Automóveis blindados. Imóveis cercados. Refúgios distantes das zonas de risco. Muros Altos! E seres sem futuro.

Devemos, sim, ampliar o acesso a oportunidades para que todos, desde a primeira infância até o final de vida, participem ativamente das diferentes instâncias de construção econômica, política, social. Oportunidades para que todos se engajem, agreguem talentos, contribuam e usufruam do que estivermos a construir. Mesas Amplas nas escolas, nos trabalhos, nos debates, todos a construir o Bem-estar comum.

Portanto, que se ampliem as Mesas! Abaixo os Muros!

E que Hän, quem quer que seja, seja sempre Bem-vindx!!

FONTEFinland.fi Toolbox
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Curador do Portal Epicentor.com. Empreende no setor de Serviços, Tecnologia e Inovação. Engenheiro civil e ambiental (UnB), pós-graduado em gestão nos EUA e França (INSEAD, MIT, Wharton e Georgetown). Foi Professor-visitante na Cornell University (Nova Iorque – EUA, 2014 e 2015) e Secretário de Comércio e Serviços do Governo Federal (2011 a 2014). Atua como Palestrante em temas voltados ao Desenvolvimento Econômico, e como Membro do Conselho de organizações. Foi co-fundador e dirigente do movimento Jovem Empresarial (CONAJE 2000 a 2002 e CJE-DF 1998 a 1999). É Autor sobre Serviços, Inovação e Empreendedorismo Digital.

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